Dupla fita de DNA

A Síndrome de Cri-du-Chat e o cromossomo 5

Entenda como a falta de uma porção cromossômica gera a Síndrome de Cri-du-Chat.

Deleções cromossômicas são responsáveis por gerar diversas condições genéticas, como é o caso da Síndrome de Cri-du-Chat. Nesta, indivíduos afetados possuem uma característica clínica que dá nome à síndrome.

Quer saber mais sobre a Síndrome de Cri-du-Chat? Acompanhe o texto para saber o que é, o que a causa e quais são alguns dos sinais e sintomas mais comuns!

O que é Cri-du-Chat?

A Síndrome de Cri-du-Chat (do francês, “miado de gato”), é uma condição genética rara, causada por uma alteração ou deleção do braço curto do cromossomo 5 (5p). Dessa maneira, essa síndrome também é chamada de “Monossomia do 5p”.

O tamanho desta deleção 5p é variável, podendo ser completa ou parcial. Na maior parte dos casos, a deleção ocorre na porção terminal do 5p, embora isso não seja uma regra e deleções intersticiais (no interior do 5p) também podem ocorrer. 

Como veremos na sequência, em cerca de 85% dos casos a síndrome não é herdada, mas sim gerada a partir de variantes de novo, ou seja, aleatoriamente. Estima-se que esta deleção autossômica afete entre 15.000-50.000 nascidas, predominantemente do sexo feminino.

Por que a síndrome possui este nome?

O principal sintoma da Síndrome de Cri-du-Chat (SCdC) é o choro em tom agudo produzido por recém-nascidos afetados. Jérôme Lejeune, o geneticista que primeiro descreveu e caracterizou a síndrome, notou a semelhança entre este achado e o choro de um gato, o que explica este nome.

Embora a apresentação seja variável, o som do choro possui esse aspecto em detrimento de modificações morfoanatômicas encontradas na laringe de indivíduos afetados, que podem incluir:

  • Subdesenvolvimento da epiglote;
  • Hipoplasia da laringe;
  • Estreitamento do lúmen da laringe;
  • Outras características das vias aéreas que perturbam a fonação.
Fonação do choro de um recém-nascido com Síndrome de Cri-du-Chat

Quais os sinais e sintomas da Síndrome de Cri-du-Chat?

Como colocado anteriormente, o genótipo de indivíduos com SCdC é variável e, portanto, a apresentação fenotípica também varia. Sendo assim, as manifestações clínicas dependem da deleção de regiões críticas do 5p, bem como da extensão da deleção.

Além do choro característico, recém-nascidos afetados também apresentam, em geral, microcefalia e fraqueza muscular (hipotonia). Adicionalmente, outros sintomas podem ser observados, como:

  • Malformações craniofaciais (face em lua, distância aumentada entre as órbitas oculares, epicanto proeminente, ponte nasal avantajada);
  • Hipersensibilidade sonora;
  • Defeitos cardíacos congênitos;
  • Patologias renais associadas;
  • Palato ogival;
  • Hipoplasia do esmalte dentário;
  • Atraso do desenvolvimento da fala.

Causas da Síndrome de Cri-du-Chat

As deleções do braço curto do cromossomo 5 são, em geral, as responsáveis pelos casos de SCdC. Estas deleções podem estar presentes na região terminal ou intersticial do 5p.

Na maioria dos casos desta síndrome (~90%), ocorrem deleções de novo. Em outras palavras, essa alteração acontece aleatoriamente durante a formação do gameta e, portanto, a síndrome não é normalmente causada por heranças transmitidas pelos pais.

Em casos menos comuns, a monossomia do 5p pode ser gerada pela segregação anormal de uma translocação balanceada presente em um dos genomas parentais. Nestas ocasiões, a monossomia do 5p é acompanhada pela trissomia de outra porção cromossômica.

Um importante aspecto relacionado com o fenótipo de indivíduos afetados são as chamadas “regiões críticas”. Estudos citogenéticos apontam que deleções dos sítios (loci) 5p15.2 e 5p15.3 estão especificamente associadas às manifestações clínicas clássicas.

Parte disso é explicado pelo fato de que estes dois loci abrigam genes importantes para o neurodesenvolvimento, tais como:

  • SEMA5A (Semaforina F);
  • CTNND2 (Δ-catenina);
  • BASP1 (Proteína cerebral solúvel em ácido);
  • CDH12 (Caderina 12);
  • CDH18 (Caderina 18).

Indivíduos com microdeleções do 5p que não incluem estes genes podem, inclusive, apresentar um fenótipo saudável. Mosaicismos, inversões e cromossomos em anel também podem ser encontrados em casos raros.

Cri-du-Chat: Cromossomo 5 com deleção no braço curto. Na imagem, evidencia-se a presença de alguns genes deletados.

Como a condição pode ser diagnosticada?

Durante o período pré-natal, a Síndrome de Cri-du-Chat pode ser detectada pela Triagem Pré-Natal Não Invasiva (NIPT) e, posteriormente, diagnosticada por amniocentese ou amostragem vilo-coriônica.

No pós-natal, recém-nascidos com o fenótipo tradicional podem ser reconhecidos com certa facilidade pelo médico, que pode realizar o diagnóstico clínico. 

Adicionalmente, o aconselhamento genético pode ser necessário para a conclusão do diagnóstico. Nestes casos, podem ser utilizados exames laboratoriais, que incluem a cariotipagem e testes mais específicos, como a Hibridização Genômica Comparativa (CGH).

Quando o filho possui uma translocação, os pais devem ser geneticamente testados, a fim de se investigar uma possível translocação balanceada, uma vez que isto pode trazer implicações para uma gravidez futura.

Tratamento da Síndrome de Cri-du-Chat

Não existe tratamento específico para a SCdC. Apesar disso, indivíduos afetados são amplamente beneficiados pela terapia de suporte, que inclui a fisioterapia (logo no começo da vida), a fonoaudiologia e a Terapia Cognitivo-Comportamental. A estimulação precoce é muito importante e aumenta a qualidade e expectativa de vida do afetado.

A maior parte das pessoas com essa síndrome possui uma expectativa de vida normal, o que pode ser avaliado no aconselhamento genético.

Referências

WILLARD, Huntington et al. Thompson & Thompson genética médica. 8. Ed. Editora Guanabara, 2016.

Ajitkumar A, Jamil RT, Mathai JK. Cri Du Chat Syndrome. StatPearls, 2022.

Espirito Santo LD, Moreira LM, Riegel M. Cri-Du-Chat Syndrome: Clinical Profile and Chromosomal Microarray Analysis in Six Patients. Biomed Research International, 2016.

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