COVID-19 e microbiota

Microbioma e COVID-19: Qual é a Relação?

A relação entre o microbioma e a COVID-19 pode estar envolvida na resposta imunológica, ou até mesmo a gravidade dos casos da doença. Entenda!
Ouça esse conteúdo

Estudos entre a relação do microbioma e COVID-19 demonstraram que alterações na comunidade de microrganismos humanos têm grande impacto na saúde de pacientes com o vírus Sars-Cov-2, como na resposta imune ou na gravidade dos sintomas.

Entenda melhor sobre como o microbioma humano e o Sars-Cov-2 se relacionam a seguir!

Microbiota nasal e COVID-19 

A microbiota humana desempenha um papel importante no nosso sistema imune. Evidências em estudos apresentaram possíveis relações entre o microbioma da nasofaringe, gastrointestinal e pulmonar com a COVID-19. 

A microbiota nasal é o conjunto de microrganismos presentes na garganta e nas narinas humanas. Esta comunidade microbiana conta com a presença de biomarcadores que podem ajudar a identificar o grau de intensidade da COVID-19 em pacientes sintomáticos. 

Com isso, esses biomarcadores também podem ajudar a desenvolver novas estratégias para tratamentos de infectados pelo coronavírus.

Microbiota da nasofaringe

A microbiota da nasofaringe é a primeira linha de defesa contra microrganismos e patógenos invasores. 

O revestimento úmido da região, juntamente com a produção do muco ajuda a criar uma barreira natural contra invasores. Também existe a presença de células imunes que são vitais para o combate a vírus respiratórios, como o Sars-CoV-2.

Em contrapartida, a região da nasofaringe também está repleta de receptores ACE-2 (Enzima Conversora de Angiotensina 2), o que favorece a contaminação pelas vias aéreas, uma vez que a proteína Spike presente no vírus se liga a esses receptores. 

Em uma pesquisa publicada recentemente, Kolhe e colaboradores observaram uma menor diversidade bacteriana em pacientes positivos e sintomáticos, quando comparado com pacientes positivos assintomáticos.

microbioma e COVID-19 ACE-2 e proteína spike

Microbiota intestinal e COVID-19 

Uma série de sintomas como inflamação intestinal e quadros de pneumonia têm sido relacionados a alterações na microbiota do organismo humano. Por isso, a relação da microbiota intestinal com a COVID-19, também tem sido alvo de muito estudo por parte dos pesquisadores.

Em um estudo publicado na Oxford University Press, foi identificado em pacientes infectados pelo Sars-Cov-2, 3 sinais de disbiose (desequilíbrio) na microbiota intestinal. Os sinais encontrados foram: 

  • A diminuição da diversidade de bactérias na microbiota intestinal; 
  • O aumento de bactérias com atividade pró-inflamatória;
  • E a diminuição de bactérias com perfil anti-inflamatório.

Mesmo em pacientes em que houve a eliminação completa do vírus, a disbiose intestinal persistiu e se agravou nos pacientes em que foi observado o tratamento com antibióticos.

Por conta disso, a microbiota intestinal pode ser considerada como um possível biomarcador de diagnóstico e alvo terapêutico para a COVID-19. No entanto, são necessários mais estudos para tornar mais claro essas informações.

Assim como a microbiota intestinal, diversas evidências em estudos recentes apontam que a composição das bactérias da região nasal pode influenciar o desenvolvimento de infecções respiratórias e a gravidade dos sintomas da COVID-19.

Uma dessas evidências, seria a presença da coinfecção de pneumonia em casos de COVID-19, o que acaba agravando os quadros clínicos dos pacientes. 

Pneumonia bacteriana, relação com microbioma e COVID-19

A pneumonia bacteriana é uma inflamação pulmonar causada pela presença e o crescimento desordenado de bactérias no principal órgão respiratório humano.

A doença geralmente acomete pacientes com imunidade baixa ou que estejam em ambientes hospitalares por conta do uso constante da ventilação mecânica em pacientes entubados. Nesse último caso, a doença se dá de modo mais grave.

Os agentes bacterianos entram em contato com os alvéolos pulmonares o que acaba dificultando as trocas gasosas e gerando uma grande dificuldade em respirar. Do ponto de vista clínico, esse é um dos principais sinais para o diagnóstico da doença em pacientes nas unidades de internação.

Nos casos mais graves de COVID-19, a pneumonia é uma das complicações mais graves, estando associado a presença de partículas virais nos tecidos pulmonares. No entanto, estudos apontam que a contaminação pela COVID-19 enfraquece o sistema imunológico e isso pode favorecer o surgimento da pneumonia por origem bacteriana.

No geral, não é possível diferenciar a origem da pneumonia viral ou bacteriana apenas pelos sinais e sintomas apresentados pelo paciente. Porém, é possível identificar o agente etiológico através de culturas bacterianas específicas para diagnóstico. 

Também é necessário que sejam avaliados outros exames complementares para o diagnóstico correto e a distinção dos casos de pneumonia. No hemograma, a presença da procalcitonina (PCT), é um biomarcador para os casos em que a infecção se apresenta por origem bacteriana.

A presença dos exames complementares também é um fator importante para auxiliar no tratamento e uso de medicamentos adequados, como os antibióticos, contribuindo  para uma melhor avaliação clínica de pacientes com quadros de pneumonia bacteriana ou viral.

Lesões Hepáticas pós infecção por Sars-Cov-2

O vírus da COVID-19 também pode gerar complicações em outros sistemas além do sistema respiratório. Os pacientes com a doença também podem desenvolver complicações hepáticas.

O Sars-Cov-2 não pode atacar diretamente as células do fígado, uma vez que essas células não possuem receptores ACE-2, que são utilizados pelo vírus da COVID-19 como portas de entrada para as células humanas.

No entanto, os pacientes infectados pelo coronavírus apresentam um evento imunológico denominado de “tempestade de citosinas”. 

As citosinas são proteínas que trabalham na regulação da resposta imunológica do organismo humano. A tempestade de citosinas é uma resposta imunológica excessiva, na qual gera um aumento da quantidade de citosinas e isso atrai muitas células inflamatórias para variados tecidos, como o tecido pulmonar e o tecido hepático.

Desse modo o dano hepático causado pela COVID-19 não se configura como uma ação direta da infecção pelo coronavírus, mas sim como uma complicação e resposta inflamatória do organismo. 

A presença de cianobactérias nos pacientes COVID-19 é um fator preocupante, pois a contaminação dessas bactérias também pode gerar danos ao fígado. Essas bactérias podem gerar toxinas que podem causar grandes danos aos seres humanos.

Uma dessas toxinas é a hepatoxina que atua diretamente sobre o fígado, interferindo no funcionamento de suas funções. Ela pode gerar o aumento de tamanho do órgão e uma série de sintomas como náuseas, vômitos e hemorragias que podem acabar levando o paciente a óbito, caso não seja tratado de maneira imediata.

O progresso de novas descobertas sobre microbioma e COVID-19.

Alguns estudos sobre a microbiota da nasofaringe indicam que a microbiota nasal pode gerar alterações na carga viral, na resposta imune e nos sintomas de infecção de vírus respiratórios, como rinovírus.

Segundo pesquisadores da área, são necessários mais estudos para esclarecer os padrões encontrados em seus experimentos. O objetivo desses pesquisadores é conseguir encontrar subsídios suficientes para iniciar análises do microbioma nasal de pacientes infectados com a COVID-19 em tempo real, através da análise de swab nasofaríngeo.

Ainda não se sabe qual é a relação da microbiota da nasofaringe e a gravidade dos casos de COVID-19. Entretanto, os estudos em desenvolvimento sobre o assunto demonstram uma grande associação entre Sars-Cov-2, a microbiota da nasofaringe e a gravidade dos casos.

Nosso grupo está trabalhando no projeto SARS-OMICs que tem como objetivo caracterizar de forma ampla e compreensiva os microrganismos do trato respiratório de pacientes com COVID-19, utilizando técnicas de Sequenciamento de Nova Geração (NGS).

Conclusão

Ainda não se sabe ao certo quais dos fatores, sejam eles a doença viral ou as alterações nas microbiotas, vêm primeiro num paciente infectado por Sars-Cov-2, em relação aos sintomas respiratórios. 

No entanto, muitos dos estudos sobre o microbioma e suas relações ainda estão em desenvolvimento. Dessa forma, será possível elaborar futuramente novas abordagens e estratégias para o enfrentamento do Sars-CoV-2 e de outros vírus respiratórios, a partir da observação dos microbiomas.

Referências

Ravindra Kolhe et al, Alteration in Nasopharyngeal Microbiota Profile in Aged Patients with COVID-19, Diagnostics (2021).

Gu S, Chen Y, Wu Z, et al. Alterations of the Gut Microbiota in Patients With Coronavirus Disease 2019 or H1N1 Influenza.

Nardelli C, Gentile I, Setaro M, et al. Nasopharyngeal Microbiome Signature in COVID-19 Positive Patients: Can We Definitively Get a Role to Fusobacterium periodonticum?

Bacteriana, pneumonia. Pneumonia bacteriana associada a COVID-19. Sociedade Brasileira de Análises Clínicas – SBAC.

Venegas-Borsellino C, Sankararaman S, Roche K, Burns J, Landis RM. Impact of COVID-19 on the Intestinal Microbiome.

Fígado. Como o coronavírus afeta o Fígado. Uol – Viva bem

Relacionados