Inovamos hoje para que você tenha um amanhã melhor.

MPS: quais são os diagnósticos e terapias?

Mucopolissacaridoses (MPS) são doenças metabólicas hereditárias causadas pela deficiência ou mal funcionamento de enzimas lisossomais que degradam os glicosaminoglicanos (GAGs). Se não tratado, o acúmulo de GAGs em órgãos e tecidos pode levar a problemas de saúde que afetam a qualidade de vida e longevidade de pacientes. Por isso, o diagnóstico precoce associado ao tratamento adequado é crucial para controlar a progressão da doença.

Sintomas de MPS

Em geral, a maioria dos indivíduos afetados é assintomático e aparentemente saudável ao nascer. No entanto, de acordo com a progressão da doença e consequente acúmulo de GAGs específicas nas células, o paciente pode apresentar sintomas que incluem:

  • Declínio cognitivo
  • Alterações na face
  • Deformidade/displasia óssea
  • Baixa estatura
  • Rigidez das articulações
  • Hérnia inguinal ou umbilical
  • Opacidade de córnea
  • Hepatomegalia e/ou Esplenomegalia (aumento do fígado e/ou baço)
  • Infecções respiratórias
  • Doenças cardíacas valvular
  • Convulsões
Deformidade nas mãos apresentada por um paciente MPS tipo I. fonte: Sharma, S, et al. ,2012.

Tipos de MPS

Até o momento, foram identificados 7 principais tipos de Mucopolissacaridoses e alguns subtipos. A classificação é determinada de acordo com o gene associado que resulta no defeito de enzimas específicas e consequente sintomas. Os tipos identificados até o momento são:

  • MPS I – Síndrome de Hurler, Hurler-Scheie e Scheie
  • MPS II -Síndrome de Hunter
  • MPS IIIA- Síndrome de Sanfilippo A
  • MPS IIIB – Síndrome de Sanfilippo B
  • MPS IIIC – Síndrome de Sanfilippo C
  • MPS IIID – Síndrome de Sanfilippo D
  • MPS IVA – Síndrome de Morquio A
  • MPS IVB – Síndrome de Morquio A
  • MPS VI – Síndrome de Síndrome de Maroteaux-lamy
  • MPS VII – Síndrome de Síndrome de Sly
  • MPS IX – Doença de Natowicz

Para saber melhor sobre cada um dos tipos de MPS, acesse nosso texto Mucopolissacaridoses (MPS): quais são os tipos e sintomas? 

Como realizar o diagnóstico?

Existem diferentes estratégias de diagnóstico de MPS. Usualmente, o processo de diagnóstico de MPS é composto pela suspeita clínica através dos sintomas observados no paciente, seguido por análises quantitativas e análise molecular para confirmar a mutação no gene referente. As análises quantitativas utilizadas no diagnóstico são:

Análises bioquímicas

Análise de Glicosaminoglicanos (GAGs) urinários

Nesse ensaio, é realizada a análise bioquímica de glicosaminoglicanos (GAGs) excretados na urina de pacientes.  O aumento do nível de GAGs na urina pode indicar a deficiência de enzimas lisossomais, uma vez que o polímero não está sendo normalmente degradado. A partir dos resultados desse ensaio, é possível prever o tipo de MPS através da identificação do padrão de GAGs. Por exemplo, pacientes com alto nível de heparán sulfato (HS) e sulfato de dermatan (DS) na urina pode indicar MPS I ou MPS II.

Exemplo de análise de GAGs na urina em gel de agarose

Ensaio enzimático – dosagem da enzima

Outra avaliação básica de diagnóstico do tipo de MPS é o ensaio enzimático. Esse ensaio é realizado com amostra do sangue do paciente e observa a atividade enzimática. Dessa forma, é possível identificar qual enzima está deficiente ou em baixa concentração no organismo e prever com maior eficiência o tipo de MPS. Por exemplo, um paciente que apresentou alto nível de HS na análise de GAGs da urina e baixa atividade da enzima heparan N-sulfatase.

Exemplo de ensaio enzimático para diagnóstico de MPS.

Teste molecular – genético

O teste molecular pode ser utilizado para confirmar os resultados das análises bioquímicas ou também para aconselhamento genético em famílias com histórico da doença. Além disso, como os primeiros sintomas podem surgir apenas com alguns meses ou anos de vida, o teste genético permite o diagnóstico precoce. Com o sequenciamento de nova geração, por exemplo, é possível realizar uma análise de todos os genes relacionados a MPS em um curto espaço de tempo.

O diagnóstico precoce associado ao tratamento específico pode aumentar consideravelmente a qualidade de vida do portador de MPS ou até mesmo prevenir por completo o desenvolvimento de complicações que poderiam ser irreversíveis.  

Terapias para pacientes com MPS:

Além dos medicamentos e cirurgias para atenuar sintomas relacionados às síndromes, existem também dois principais tratamentos que vêm sendo utilizados em pacientes com diferentes tipos de mucopolissacaridoses. São eles:

Reposição enzimática:

A terapia de reposição enzimática é um tratamento realizado através de infusão intravenosa que repõe a enzima deficiente no paciente. Esse tratamento vem se mostrado eficaz para a redução de características somáticas como hepatomegalia, rigidez articular e doenças respiratórias. Assim, melhorando a qualidade e expectativa de vida dos indivíduos com MPS.

Entre as desvantagens dessa terapia estão a necessidade de infusões constantes (semanalmente), alto custo e reações adversas ao tratamento. Além disso, as enzimas não penetram no tecido conjuntivo ou ossos, portanto não é eficaz para doença cardíaca valvular ou displasia óssea.

Transplante de células-tronco hematopoiéticas

O transplante ocorre através da doação de medula de um indivíduo saudável que seja compatível com o indivíduo que irá receber as células. Esse tratamento é recomendado para casos mais severos do MPS tipo I (Síndrome de Hurler). Se realizado de forma precoce, até 18 meses de vida, as células-tronco são capazes de popular o sistema nervoso central e interromper a progressão de características neuropáticas.

Entre as desvantagens estão o alto custo de tratamento, dificuldade de encontrar doadores de medula compatíveis, não são eficazes em tecidos como ossos, coração e córnea e, além disso, apresenta um alto nível de mortalidade.

Terapia gênica

A terapia gênica é uma ferramenta promissora para o tratamento de MPS. O vetor, normalmente viral, com o gene responsável pela produção da enzima específica é injetado diretamente no tecido ou por infusão sistémica no indivíduo. O vetor não se integra significantemente no DNA, porém permanece no núcleo expressando o gene de interesse.

O procedimento pode ser realizado in vivo, inserindo o vetor com o gene de interesse no paciente ou ex vivo, utilizando as células do próprio paciente para inserir o gene por engenharia genética para então inserir novamente. A terapia gênica vem se mostrando uma ferramenta eficaz em sintomas relacionados ao sistema nervoso central.

Conclusão, realizar o diagnóstico do tipo de Mucopolissacaridoses, principalmente de forma precoce e realizar os tratamentos de acordo com a necessidade, é fundamental para proporcionar melhor qualidade de vida ao paciente.

Referências:

Çelik B, Tomatsu SC, Tomatsu S, Khan SA. Epidemiology of Mucopolysaccharidoses Update. Diagnostics (Basel). 2021 Feb 10;11(2):273. doi: 10.3390/diagnostics11020273. PMID: 33578874; PMCID: PMC7916572.

McBride KL, Flanigan KM. Update in the Mucopolysaccharidoses. Semin Pediatr Neurol. 2021 Apr;37:100874. doi: 10.1016/j.spen.2021.100874. Epub 2021 Feb 10. PMID: 33892850.

Parini R, Deodato F. Intravenous Enzyme Replacement Therapy in Mucopolysaccharidoses: Clinical Effectiveness and Limitations. Int J Mol Sci. 2020 Apr 23;21(8):2975. doi: 10.3390/ijms21082975. PMID: 32340185; PMCID: PMC7215308.

Sharma, S; Sabharwal, J; Datta, P; Sood, S. Clinical manifestation of Hurler syndrome in a 7 year old child. Contemporary clinical dentistry.(2012) 3. 86-9. 10.4103/0976-237X.94554.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Relacionados