Inovamos hoje para que você tenha um amanhã melhor.

Síndrome de Klinefelter: erros genéticos envolvendo os cromossomos “X” e “Y”

A síndrome de Klinefelter, restrita ao sexo masculino, foi o primeiro distúrbio em cromossomos sexuais a ser cientificamente relatado.

A síndrome de Klinefelter é uma anomalia relacionada aos cromossomos sexuais. Esta se dá quando um indivíduo do sexo masculino é portador de pelo menos um cromossomo X a mais em seu cariótipo. A forma mais comum, presente em 80-90% dos casos detectados, é o cariótipo 47,XXY, podendo ser encontrado com menor incidência casos de cariótipo 48,XXYY; 48,XXXY e 49,XXXXY e casos de moisaicismo.

O material genético é o detentor do código da vida. O DNA, ao lado das proteínas, faz parte de sua estrutura física enquanto o RNA está ligado a vários processos relacionados à expressão dos genes, além de poder desempenhar papéis enzimáticos. Os ácidos nucleicos são as moléculas ligadas, diretamente, à hereditariedade. Não por acaso, são chamados de moléculas da vida.

Os processos de herança, ou seja, responsáveis por passar as informações genéticas adiante, são os eventos de divisão celular: mitose (dentro do contexto somático) e meiose (dentro do contexto germinativo). Durante tais eventos a maquinaria celular compacta os dados genéticos para passá-los em segurança às futuras gerações. O material genético, então, sofre modificações conformacionais, passando do estado de cromatina para cromossomo. Porém, erros podem ocorrer durante o processo – mutações gênicas ou alterações em cromossomos (popularmente conhecidas como mutações cromossômicas) -, o que pode levar a condições genéticas anômalas.

A citogenética é o ramo da genética que estuda cromossomos e problemas relacionados a eles. Anormalidades cariotípicas são comuns em humanos, seja envolvendo cromossomos sexuais ou autossômicos. Nesse contexto as alterações cromossômicas numéricas, em especial as aneuploidias, são frequentes por estarem relacionadas a não-disjunção dos cromossomos homólogos durante a meiose. Falha que ocorre com maior frequência envolvendo gestações na faixa etária de 35 anos ou mais. Por isso, a incidência de alterações numéricas costuma ser relacionada a alterações na estrutura cromossômica.

Alterações genéticas cromossômicas

Desempenhando um papel de grande importância na patogênese de doenças malignas, as falhas genéticas envolvendo cromossomos constituem-se em um relevante grupo de distúrbios genéticos. Além disso, também contribuírem para episódios mais frequentes de infertilidade e abortos espontâneos. Logo, a análise do cariótipo do paciente é um procedimento diagnóstico padrão para vários fenótipos específicos vistos em clínica médica.

Distúrbios cromossômicos distintos têm elo com mais de 100 síndromes passíveis de diagnóstico que, em termos coletivos, prevalecem mais sobre a população que todos os distúrbios mendelianos monogênicos somados. Além de corresponderem com cerca de 1% dos nativivos, cerca de 2% das gestações de mães com idade na faixa de 35 anos – ou mais – que tiveram diagnóstico pré-natal e cerca de 50% de todos os abortos espontâneos de primeiro trimestre.

A maioria das aneuploidias está relacionada às trissomias. Um cromossomo extra no cariótipo é menos prejudicial à manutenção da vida do que a ausência. Diante da falta de muitos genes, o organismo humano é incapaz de manter-se vivo. O cromossomo X, quando totalmente ausente no cariótipo leva ao aborto, visto que se trata de um cromossomo detentor de muitos genes – mesmo com a presença de um “Y” no cariótipo. Entretanto, diante de uma situação reversa, onde há falta de um “Y” e presença de um “X”, o resultado será um indivíduo portador de uma condição genética conhecida como síndrome de Turner. 

trissomias cromossomicas
A prevalência de erros genéticos envolvendo cromossomos sexuais está entre as mais altas, comparando-se a síndrome de Down – distúrbio cromossômico mais incidente em humanos. Sendo mais frequente que outros distúrbios cromossômicos autossômicos, como a síndrome de Patau (1:25.000) e síndrome de Edwards (1:7.500). FONTE: Genetica Medica 6ed – Thompson & Thompson

Para efeito comparativo, 1 a cada 850 nascimentos é de uma criança com síndrome de Down, enquanto 1 a cada 1000, aproximadamente, é de alguém com síndrome 47,XYY ou do triplo X ou de Klinefelter. Porém, esses valores podem estar subestimados, visto que, o diagnóstico de homens com síndrome de Klinefelter e 47,XXY envolve – quase sempre – visitas ao médico devido a problemas com infertilidade, o que sugere uma incidência mais alta desses genótipos. Assim, é provável que muitos acometidos vivam sem ser identificados pois não há distinção fenotípica aparente entre portadores dessas condições genéticas.

Síndrome de Klinefelter

A Síndrome de Klinefelter foi o primeiro distúrbio em cromossomos sexuais a ser cientificamente relatado. Foi em 1942, quando três pesquisadores estadunidenses da área de endocrinologia – Harry Klinefelter, Fuller Albright e Edward Conrad Reifenstein Junior – definiram uma síndrome citogenéticamente conhecida pelo cariótipo 47,XXY. Somente em 1959, após 17 anos, esta síndrome teve seu mecanismo genético compreendido, graças aos pesquisadores escoceses Patricia Ann Jacobs e John Anderson Strong. A síndrome de Klinefelter é um distúrbio restrito ao sexo masculino e tem incidência entre 1:700 e 1:1000.

Problemas na meiose I paterna relacionam-se com cerca de 50% dos casos, como advento de uma falha na recombinação Xp/Yp na região pseudo-autossômica – região em que os cromossomos X e Y se pareiam na meiose I e onde há crossing over. Em meio a casos de origem materna, a maioria é oriunda de falhas na meiose I, enquanto o restante associa-se com a meiose II ou de um provável erro mitótico pós-zigótico, levando ao mosaicismo. Entre os diagnosticados, cerca de 15% têm cariótipos mosaicos. A idade materna é um fator relacionado ao aumento de erros da meiose I feminina.

Diversas variantes no cariótipo de indivíduos com síndrome de Klinefelter podem ser encontrados, como: 48,XXYY; 48,XXXY e 49,XXXXY. Como regra, os cromossomos X excedentes – embora estejam inativos – levam a apresentação de um grau maior de dimorfismo e a alterações no desenvolvimento sexual e mental. Quando submetidos a testes de desempenho intelectual, os pacientes podem apresentar resultado médio e relativamente baixo. Também podem apresentar dificuldade na aprendizagem, como de leitura e interpretação.

Cariótipo da síndrome de Klinefelter
Cariótipo mais comum dos portadores da síndrome de Klinefelter.

Os indivíduos com síndrome de Klinefelter apresentam características notáveis em seu biotipo, geralmente são altos, magros e com pernas relativamente longas. Na puberdade, sinais de hipogonadismo se tornam evidentes, alguns podem vir a ter ginecomastia e alterações no desenvolvimento dos testículos e caracteres sexuais secundários.

Em geral, os portadores da síndrome são identificados pela primeira vez ao realizarem testes de fertilidade, semelhante ao que ocorre com indivíduos acometidos pela síndrome 47,XYY. Pacientes com a síndrome de Klinefelter são frequentemente inférteis devido a disfunções no desenvolvimento de suas células germinativas. 

Referências:

CURADO, R.; SESTARI, S.; GAMBA, B.; BICUDO, L.; APPROBATO, M.; AMARAL, W.; BÉRGAMO, N. et al. Síndrome de Klinefelter, uma condição subdiagnosticada: revisão literária. Revista Referências em Saúde da Faculdade Estácio de Sá de Goiá- RRS-FESGO, v.1, n, 1, p.68-75, 2020.

BEARELLY, P.; OATES, R. Recent advances in managing and understanding Klinefelter syndrome. F1000Research, v. 8, 2019.

GRIFFITHS, A. J. F., WESSLER, S. R., LEWONTIN, R. C., & CARROLL, S. B. (2006). Introdução a Genética. In Guanabara Koogan.

GUERRA, M. Introdução a Citogenética Geral. Rio de janeiro: Guanabara Koogan, 1989.142p

NUSSBAUM, R.L.; McINNES, R.R.; WILLARD, H.F. Thompson & Thompson. Genética Médica. 8. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2014. 

SAMANGO-SPROUSE, C.A.; COUNTS, D.R.; TRAN, S.L.; LASUTSCHINKOW, P.C.; PORTER, G.F.; GROPMAN, A.L. Update On The Clinical Perspectives And Care Of The Child With 47,XXY (Klinefelter Syndrome). Dove Press Journal, v. 12, p. 191–202, 2019.

SÍNDROME DE DOWN: O QUE É A SÍNDROME DE DOWN. Disponível em: <http://federacaodown.org.br/sindrome-de-down/> Acesso em: 7 abr. 2021.

SKAKKEBÆK, A. et al. DNA hypermethylation and differential gene expression associated ith Klinefelter syndrome. Scientific Reports, v.8, 13 set. 2018.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Relacionados