Síndromes em cromossomos autossômicos: síndrome de Patau

A síndrome de Patau, descrita cientificamente pela primeira vez em 1960, é uma síndrome cromossômica rara, com incidência de 1:25.000.

Existem atualmente, milhares de doenças associadas a causas genéticas. O termo doença, nessa situação, se refere a uma condição clínica estabelecida por uma alteração na sequência de nucleotídeos do DNA, erro genético, conhecido por mutação. Cerca de 13 milhões de brasileiros (aproximadamente o número de habitantes da Bolívia) foram diagnosticados com alguma doença rara e, segundo estimativas, a maior parte deles possui um elo genético. A cada 10 diagnósticos de doenças raras apenas 2 não têm distúrbio genético envolvido. 

síndrome de patau
Figura 1: Existem no Brasil cerca de 13 milhões de pessoas com doenças raras e 30% deles chegam a óbito antes dos 5 anos de idade. O conceito de Doença Rara (DR), de acordo a Organização Mundial de Saúde (OMS), é a doença que afeta até 65 pessoas em cada 100 mil indivíduos.

Mutações são encontradas regularmente nos seres vivos. Alterações no material genético ocorrem a todo momento e, embora a maioria dos organismos tenha um sistema de reparo, muitos erros genéticos permanecem podendo – ou não – serem hereditários. Sabe-se, hoje, que até o coronavírus tem mecanismos de reparo e, mesmo assim, novas cepas e linhagens tem surgido com relativa velocidade. 

Segundo a ciência, existem dois tipos de mutações: gênicas e cromossômicas. A primeira envolve alterações na sequência do DNA que podem envolver desde um único nucleotídeo até alguns pares de bases, enquanto a segunda envolve alterações estruturais ou até em número de cromossomospodendo assim atingir muitos genes em uma só mutação.

As síndromes cromossômicas apresentam fenótipos complexos e com a síndrome de Patau não é diferente. Sua maior incidência é fruto da trissomia do cromossomo 13, podendo também, ocasionalmente, ocorrer por translocação, ou seja, três cópias do cromossomo 13 em vez de duas.

A síndrome de Patau é a terceira mais frequente entre as anomalias cromossômicas em autossomos, somente atrás da síndrome de Down – trissomia do cromossomo 21 – e síndrome de Edwards – trissomia do cromossomo 18. É através da montagem do cariótipo que síndromes cromossômicas são identificadas.

cromossomos
Figura 2: Cariótipo é a descrição das características do conjunto cromossômico padrão de uma espécie. Na figura podemos ver um cariótipo humano normal com seus 46 cromossomos metafásicos. Grupo A (1-3): 3 pares cromossômicos grandes, sendo A2 submetacêntrico, A1 e A3 metacêntricos. Grupo B (4-5): 2 pares cromossômicos submetacêntricos grandes. Grupo C (6-12+X): 7 pares submetacêntricos médios mais o cromossomo “X”. Grupo D (13-15): 3 pares cromossômicos acrocêntricos médios (satélite). Grupo E (16-18): 3 pares cromossômicos pequenos, sendo 16 metacêntrico, 17 e 18 submetacêntricos. Grupo F (19-20): 2 pares cromossômicos metacêntricos pequenos. Grupo G (21-22+Y): 2 pares cromossômicos acrocêntricos (satélite) pequenos mais o cromossomo “Y”. Em destaque estão os pares cromossômicos relacionados as síndromes de Down (em vermelho), Patau (em azul) e Edwards (em amarelo). FOTO: RENATO FLORES UFSma. 

Histórico e números da síndrome de Patau

A síndrome de Patau, é uma síndrome cromossômica rara, com incidência de 1:25.000. Foi descrita cientificamente pela primeira vez pelo alemão Klaus Pätau, em 1960, e – em sua homenagem – ficou conhecida como síndrome de Patau. Pode ser também encontrada pelo nome de Síndrome Bartholin-Patau, já que em 1656 Thomas Bartholin – dinamarquês – descreveu o quadro clínico de crianças apresentando tal deficiência. 

Entre os afetados pela síndrome de Patau, estimativas sugerem que 8 a cada 10 nascidos (80%) demonstram trissomia regular – três cromossomos 13 – enquanto os 20% restantes são representados por indivíduos mosaicos ou casos referentes a translocação esporádica ou herdada. A maioria dessas translocações é Robertsoniana, envolvendo 2 cromossomos acrocêntricos. Logo, a criação de um cromossomo mutado entre os demais cromossomos saudáveis têm o mesmo efeito do cromossomo 13 em dose tripla.

Assim como a síndrome de Edwards, a síndrome de Patau apresenta uma nítida ligação com o sexo feminino. Há certa prevalência da síndrome em meninas e, como a maioria das trissomias, os riscos de nascimento de uma criança com tal condição genética aumenta nitidamente com o aumento da idade materna. O cromossomo extra surge da não disjunção na meiose I materna. A cariotipagem é indicada em crianças ou fetos suspeitos de portarem a síndrome, por meio de técnicas de citogenética, para confirmação do diagnóstico clínico.

Trata-se de uma síndrome clinicamente grave e letal, sendo comum que metade das crianças afetadas não sobrevivam além do 1º mês de vida e os demais sobrevivam até o 6º mês. Raríssimos são os casos de sobrevivência após essa idade, a não ser em casos particulares de mosaicismo. O baixo peso corporal nos recém-nascidos (ao redor de 2.600gr) é muito comum. 

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Aspectos clínicos da síndrome de Patau

Assim como as demais síndromes cromossômicas em autossomos, o retardamento mental está presente. Sendo um dos complicadores das síndromes cromossômicas. Além do mais, ocorrem também malformações graves do sistema nervoso central, tais como arrinencefalia e holoprosencefalia. A testa é inclinada, há microcefalia e suturas largas, as orelhas são deformadas, podendo haver croftalmia, coloboma de íris ou até ausência de olhos. Fendas labiais (lábio leporino) e palatinas são comuns.

Tal como a síndrome de Down, o indivíduo pode apresentar pescoço curto e palmas das mãos com linha simiesca são frequentes. Há também aspectos fenotípicos similares aos da síndrome de Edwards, como os “pés em cadeira de balanço” e os punhos cerrados com o 2º e 5º dedos se superpondo ao 3º e 4º dedos. Polidactilia é comum em mãos e pés, assim como unhas estreitas e hiperconvexas.

síndrome de patau
Figura 5: Comparação entre as pregas palmares das mãos de pessoas normais. Trata-se de um fenótipo coriqueiro em indivíduos com síndrome de Down e síndrome de Patau.

Em geral, a distância intermamilar é grande e internamente, na região toráxica e abdominal, há malformações cardíacas congênitas – como em outras síndromes – além de defeitos urogenitais, como rins policísticos, genitais externos anormais, incluindo, nos homens criptorquidismo e, em mulheres, útero bicórneo e ovários hipolásicos.

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Figura 6: Imagem das mãos de um bebê recém-nascido com os punhos cerrados, com dedos sobrepostos e hipoplasia das unhas, fenótipos característicos de algumas síndromes cromossômicas como síndromes de Patau e Edwards.

Alterações fenotípicas complexas acometendo o corpo do paciente internamente e externamente, atreladas a uma condição de retardamento mental, prejudicam a qualidade de vida dos poucos indivíduos com a síndrome de Patau que ultrapassam um ano de idade. Entretanto, com a evolução da ciência e advento de novas tecnologias na área de saúde, terapias e cirurgias corretivas tem servido de paliativo na vida destes indivíduos e seus familiares.

Referências

BROWN, T. A. Genética: um enfoque molecular. 3ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1999.336p.

GUERRA, M. Introdução a Citogenética Geral. Rio de janeiro: Guanabara
Koogan, 1989.142p

NUSSBAUM, R.L.; McINNES, R.R.; WILLARD, H.F. Thompson & Thompson.
Genética Médica. 8. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2014.

SÍNDROME DE DOWN: O QUE É A SÍNDROME DE DOWN. Disponível em:
<http://federacaodown.org.br/sindrome-de-down/> Acesso em: 7 abr. 2021.

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