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A mutação do coronavírus no Reino Unido

A mutação do coronavírus no Reino Unido motivou uma série de estudos epidemiológicos para investigar variantes genéticas.

A notícia da mutação do coronavírus no Reino Unido e o aumento significativo nos casos de COVID-19, motivou uma série de estudos epidemiológicos para investigar possíveis variantes genéticas que poderiam estar causando este aumento repentino. Porém, antes de nos preocuparmos somente com as diferenças no vírus, temos que lembrar que outros fatores também podem levar ao aumento de casos. Bons exemplos seriam o afrouxamento das restrições de lock-down e a maior movimentação das pessoas devido a feriados ou ao cansaço das restrições.

Quais são as certezas?

A princípio, não há certezas sobre o que está acontecendo. Os pesquisadores da área de genômica viral estão sequenciando diversas amostras do novo coronavírus para verificar e registrar as mutações que estão surgindo. É um trabalho super importante e fundamental que, antes de mais nada, precisa vir acompanhado de outros estudos mais detalhados. É o primeiro alerta que sugere uma nova variação do vírus mais virulenta ou transmissível entre a população. Mas por enquanto, são apenas suspeitas. Outros testes ainda precisam ser conduzidos em laboratório para complementar os dados de sequenciamento e encontrar relações causais entre o aumento de casos ou o aparecimento de casos mais graves.

O que caracteriza uma nova cepa do coronavírus?

O SARS-CoV-2 apresenta o seu material genético na forma de uma molécula de RNA, composta por bloquinhos que chamamos de nucleotídeos. São cerca de 29000 ao todo. É esperado que estes blocos sofram mutações em diferentes posições destes 29000 nucleotídeos, e muitas podem acontecer de forma aleatória. Quando estas mutações surgem, elas podem permanecer nas próximas gerações do vírus, ou simplesmente desaparecerem. Basicamente, são dois processos que determinam isso: A deriva genética (aleatoridade) ou seleção natural. Lembrem destes dois processos!

Conforme uma linhagem do vírus vai adquirindo e acumulando estas mutações, em algum momento os pesquisadores passam a dizer que se trata de uma nova cepa do vírus. O que na prática significa que essa nova cepa apresenta um número X de mutações que o diferenciam do vírus original de antigamente. Esse número X pode variar de vírus para vírus, e os pesquisadores não chegaram num consenso ainda para este novo coronavírus.

A mutação do coronavírus no Reino Unido é motivo de preocupação?

Quando uma nova cepa do vírus passa a ser muito frequente numa determinada população, isso só pode ser devido a um dos processos mencionados acima: Deriva ou seleção. No caso de o motivo desta cepa ter se tornado tão frequente no Reino Unido ser devido à deriva (aleatoridade), não há motivo para tanta preocupação. Essa cepa poderia ter se tornado tão frequente graças a alguma movimentação especial da população da região, como um feriado prolongado por exemplo.

Porém, se o motivo do aumento repentino for seleção natural, isso pode significar que a cepa apresenta alguma vantagem evolutiva. Que ela infecta com mais facilidade os hospedeiros, que gera mais partículas infecciosas, ou que causa menos mortes. E neste caso, há muitos motivos para preocupação. Esta nova cepa pode apresentar características de infecção totalmente novas para as quais não estaríamos preparados.

As mesmas medidas de prevenção se aplicam sempre nesta pandemia. Pratique o isolamento social e use máscaras sempre que precisar sair a público. Estas medidas são eficientes contra o coronavírus inicial, e também são eficientes contra a maioria dos patógenos respiratórios.

Os pesquisadores precisam de tempo para entender esta nova variante do vírus e todos podem ajudar seguindo as medidas de distanciamento social. Este tempo irá permitir que os pesquisadores levantem evidências sólidas sobre as características da mutação do coronavírus, permitindo às autoridades tomarem as devidas providências.

O que tem sido feito no Brasil para monitorar o vírus?

No Brasil, nosso grupo do SARS-Omics está sequenciando novos casos de COVID-19 toda semana para identificar possíveis novas variantes do vírus. Em parceria com os pesquisadores que desenvolvem a plataforma de haplotipagem de SARS-CoV-2, estão sendo monitorados o surgimento e flutuações das mutações brasileiras num contexto global.

E além disso, muitos outros pesquisadores brasileiros têm feito o mesmo. Estamos de sentinelas e prontos para reportar novas cepas preocupantes que surjam nas rotinas de testagem laboratorial.

Autores

Deyvid Amgarten, Doutorando em Bioinformática e Genômica Viral pela Universidade de São Paulo. Bioinformata no Hospital Israelita Albert Einstein e no projeto SARS-Omics

Ana Laura Boechat, Doutora em Bioquímica pela Universidade de São Paulo e bolsista do projeto SARS-Omics

João Renato Rebello Pinho, Médico Patologista Clínico do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e do Departamento de Medicina Laboratorial do Hospital Israelita Albert Einstein. Pesquisador responsável do projeto SARS-Omics

Referências
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